Archive for ‘Dicomania’

Maio 3, 2010

Metal – Cultura para além da música (parte 3)

por Paulo Trindade

Continuação do artigo disponível aqui.

Já que nos dois artigos anteriores me lamentei da escassez de eventos culturais em Portugal incidindo no Som Eterno não quero deixar de enaltecer (tardiamente, é verdade), pela coragem e abrangência, o inovador evento Metal Day, realizado a 23 de Janeiro na FIL, em Lisboa, com organização dos Moonspell.

O objectivo era transmitir uma perspectiva cultural do Som Eterno tentando recriar, na medida do possível, o conceito de metal village (tão em voga no estrangeiro mas novidade em Portugal). Assim, o evento albergou uma conferência subordinada ao tema “O Metal e a Escrita”, com a participação de várias personalidades; a transmissão do documentário Global Metal, de Sam Dunn e Scott McFayden; uma pequena exposição de fotografias de concertos; actuações dos Opus Diabolicum, grupo de cordas com percussão especializado em versões de temas dos Moonspell; actuações do grupo de Night Eternal e dos Bizarra Locomotiva e uma aftershow party em que os DJ’s foram os próprios spells, não esquecendo as bancas de merchandise e discos. Iniciativa arrojada, que aplaudo e, espero, se repita de forma ainda mais ampla. Anualmente, de preferência.

Não surpreende que um tal conceito haja partido da mais internacional banda pesada portuguesa, habituada que está a viver experiências riquíssimas no estrangeiro, onde a oferta nos festivais e alguns concertos não se reduz à música, abrangendo conferências e debates, workshops, sessões de autógrafos, transmissão de filmes, aldeias de Metal com inúmeras actividades culturais e recreativas (passatempos, concursos, etc.), uma significativa oferta comercial que se expande muito para além do típico merchandise de bandas e acessórios, com inúmeros, livros, revistas e fanzines sobre o género à venda. Em suma, é um mundo radicalmente distinto, que Portugal só conhece de ouvir falar.

Até 23 de Janeiro, para além dos inúmeros espectáculos em si e alguns workshops, a oferta cultural no nosso país relativa ao Som Eterno resumia-se a exposições pontuais de fotos, algumas – ainda mais raras – transmissões de documentários, festas de lançamento de DVD’s ou CD’s ou almoços-convívio em que os “comes e bebes” assumem especial destaque. Nem as sessões de autógrafos que se organizavam nos anos 80 e 90 com bandas internacionais – Slayer, Megadeth ou Quorthon, dos Bathory, para citar alguns – têm expressão actualmente (a última realizada foi com Paul Di’Anno, se não estou em erro). Porém, tenho esperança que o Metal Day não só tenha continuidade mas que inspire outros a fazer muito mais, melhor e diferente do que até agora. Com o envolvimento de todos.

Dico

Outubro 13, 2009

Maldito complexo de inferioridade

por Paulo Trindade

Há tempos, ao relembrar velhas memórias com o músico “X” (que assim designarei por motivos de amizade, respeito e confidencialidade), com quem toquei dois anos nos Dinosaur, este relatava-me uma situação bizarra (na sua óptica) que vivera meses antes. Encontrando-se num bar acompanhado por um seu amigo (a quem chamarei sr. “Y”), ex-membro dos Moonspell, o músico “X” foi abordado por um fã que, reconhecendo-o, se lhe dirigiu perguntando “és o ‘músico ‘X’, dos Dinosaur, não és?”.  O executante anuiu, tendo o homem começado imediatamente a expressar a admiração que nutria pela música do grupo.

Incomodado perante o entusiamo do fã, que praticamente ignorara o sr. “Y”, o músico “X” dizia-lhe, ao mesmo tempo que agradecia os rasgados elogios: “este é o sr. ‘Y’, antigo elemento dos Moonspell”. Cumprimentando rapidamente o executante, o admirador prosseguiu, determinado, o relato sobre a importância dos Dinosaur na sua juventude.

Mas, visivelmente intimidado pela presença de tão ofuscante estrela, o “músico X” prosseguia a chamada de atenção do fã para o músico. Sem êxito. “Como pode ele ignorar o sr. “Y”?”, interrogava-se.  Ao homem não interessava falar com o ex-Moonspell, mundialmente famoso, mas com o “músico X”, meramente conhecido no canto sul da Europa. Afinal, haviam sido os pequenos Dinosaur a marcar a vida e formação musical deste fã, não os grandes Moonspell, por mais bizarro que tal pudesse parecer ao “músico X”, que deveria ter aceite o facto sem complexos e aproveitado a glória do momento.

Infelizmente, esta imensa falta de auto-estima, esta incompreensível subvalorização consciente do trabalho realizado, este desconhecimento do impacto da própria obra no Underground nacional, esta subserviência e rebaixamento aos “grandes” não é exclusiva do meu antigo colega de banda. Não. Além de reflectir a mentalidade complexada da generalidade dos portugueses, que julgam que os outros são sempre melhores (vá lá saber-se porquê), esta crença limitadora transparece também na generalidade do Underground português.

Basta pensarmos na quantidade de grupos nacionais que promovem CD’s de longa-duração (com edições profissionais a todos os níveis) como se de EP’s se tratassem, classificando-os mesmo como tal; ou os que divulgam EP’s igualmente profissionais como meras demo-CD’s, catalogando-os conscientemente dessa forma (mas o inverso também é verdade, havendo grupos cujo excesso de auto-estima e falta de noção do ridículo os levam a promover maquetas deploráveis a que chamam EP’s …). Se as próprias bandas nivelam por baixo o valor do seu trabalho como irão os outros respeitá-lo? Vejam o exemplo de uma certa comunicação social em que, não raras vezes, a análise de álbuns e EP’s profissionais se faz na secção reservada às maquetas.

Não tenho dúvidas que uma das principais chaves para o eternamente adiado sucesso internacional das bandas Underground nacionais reside na construção de uma atitude mental positiva, amor-próprio, auto-valorização, confiança, auto-estima, ambição e respeito pelo seu próprio trabalho. Acreditar no potencial da sua obra e perseguir o grau evolutivo seguinte, trabalhando arduamente para o alcançar e nunca menosprezando o seu valor não está ao alcance de todos. Só dos que sabem (e pretendem) realmente ser bem-sucedidos. É pena que sejam poucos.

Dico

Agosto 6, 2009

Metal – cultura para além da música (parte 2)

por Paulo Trindade

Continuação do artigo publicado em https://lusitaniadepeso.wordpress.com/2009/06/08/metal-cultura-para-alem-da-musica/

Há dez anos, um amigo dizia-me, algo irado, que “o Metal também é cultura”. Resultante da percepção do elitismo (ou deverei afirmar snobismo?) que sempre caracterizou os melómanos da Música Erudita, a sua opinião tornou-se imediatamente minha. Aliás, na época, a ostracização a que o Metal era votado atravessava a sociedade como um todo.

Uma década volvida, a aceitação do género é inusitada, embora em Portugal o Som Eterno ainda não seja considerado uma forma cultural plena, que ultrapassa as fronteiras puramente musicais do género. Aliás, verifico surpreendentemente que, salvo honrosas excepções, a generalidade dos agentes envolvidos – músicos, editores, jornalistas/críticos, animadores de rádio, promotores, lojistas, etc. – reduz o Som Eterno à música per se, como se se esgotasse nos CD’s, DVD’s e concertos.

Nem os profissionais da área (especialmente jornalistas, divulgadores e radialistas, que em geral acumulam estas funções), mostram ambição para além das rotinas que regem a sua actividade. Embora possuam acesso privilegiado a meios que lhes permitem variar a oferta cultural (livros, documentários, estudos científicos e videojogos sobre música) não o fazem. Por opção, julgo.

Assim, de duas, uma: ou o público continua a ignorar a existência de documentos essenciais para o desenvolvimento da sua cultura musical ou se vê na contingência de, por livre iniciativa, procurar os referidos títulos – que, a bem da verdade, se encontram facilmente nos pequenos e grandes retalhistas online. De qualquer forma, o serviço prestado por quem de direito fica muito aquém do esperado.

O Metal enquanto objecto de estudo

Igualmente obsceno é o quase total desinteresse académico e científico dedicado pelos fãs nacionais (enquanto investigadores e estudantes) ao género. Só na segunda metade da presente década houve uma ténue inflexão no marasmo existente, realizando-se alguns trabalhos seminais na área – A Ilustração Gráfica no Movimento Musical “Heavy Metal” no Final do Século XX (2002), tese de Licenciatura em História da Arte assinada por José Manuel “Joey” Capela; Marginalidades Juvenis no Limiar do Século XXI: Poder, Mercado, Subversão & Conflito (2006), dissertação do Mestrado em Sociologia de Miguel Marques da Silva; e os papers A Comunidade Metálica no Ciberespaço e Black Metal Norueguês (A Imagem Crua), ambos assinados em 2009 por Humberto Rodrigues da Silva, no âmbito do Mestrado em Ciências da Comunicação. O autor encontra-se a preparar a dissertação de Mestrado sobre Metal online.

Paralelamente, o músico e investigador na área da Musicologia Miguel Almeida prepara uma tese de Mestrado sobre o Heavy Metal em Portugal, no âmbito do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa.

À luz destes dados, os incautos julgarão que, em Portugal, o cenário não é mau (“encorajador” será o termo adequado), embora estejamos numa fase embrionária da investigação e produção de conhecimento no sector, ao contrário dos países anglo-saxónicos (especialmente a Inglaterra, os Estados Unidos e mais recentemente o Canadá) e latino-americanos (com especial enfoque no Brasil1).

No entanto, como afirma o jornalista e investigador brasileiro Jorge Luiz Cunha Cardoso Filho, mesmo a nível mundial “foi somente nos últimos 15 anos que os teóricos se interessaram pelo tema e começaram a produzir uma bibliografia especializada no assunto, a fim de compreenderem de maneira mais profunda os aspectos sociológicos do heavy metal, bem como sua dimensão simbólica e musical”2.

Em particular na última década verificou-se um considerável aumento de importantes estudos sociológicos, antropológicos, psicológicos e históricos sobre o Metal enquanto aglutinador de paixões, gerador de comunidades altamente ritualizadas, com simbologia, ética, representações sociais e comportamentos próprios. Algumas dessas pesquisas resultaram em livros como Heavy Metal: The Music and its Culture; Running with the Devil: Power, Gender, and Madness in Heavy Metal Music; Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Metal Underground; Rock, and Jazz: Perception and the Phenomenology of Musical Experience; Heavy Metal: A Cultural Sociology; Heavy Metal in Baghdad: The Story of Acrassicauda; This Ain’t the Summer of Love: Conflict and Crossover in Heavy Metal and Punk; Sound of the Beast: The Complete Headbanging History of Heavy Metal; Extreme Metal: Music and Culture on the Edge ou Heavy Metal Islam: Rock, Resistance and the Struggle for the Soul of Islam.

Aliás, a relevância do Metal enquanto objecto de estudo científico ficou bem patente na atribuição pelo Governo neozelandês, em 2007, de uma bolsa de estudo no valor de 96 mil dólares locais (cerca de 50 mil euros), válida até 2010, ao investigador e headbanger David Snell para conclusão da sua tese de doutoramento, intitulada The Everyday Life of Bogans: Identity and Community Among Heavy Metal Fans. A notícia correu Mundo.

Por outro lado, os documentários Metal: A Headbanger’s Journey e Global Metal, realizados pelo antropólogo canadiano Sam Dunn com Scott McFadyen3, revelaram-se determinantes para um maior desenvolvimento cultural do género. Embora não baseados em pressupostos científicos, estes documentos trouxeram ao Metal uma nova credibilidade, suscitando o interesse dos fãs e da sociedade em geral numa perspectiva sociocultural e histórica.

Mas nem sempre tudo corre pelo melhor. Nos Estados Unidos, algumas empresas especializadas no multimilionário e altamente duvidoso negócio de elaboração de trabalhos académicos por encomenda (teses, monografias, dissertações, relatórios, ressenções críticas, ensaios, artigos, etc., independentemente do grau académico dos alunos) aproveitou-se da imensa valorização e demanda do Metal enquanto objecto de estudo, incluindo o tema na sua oferta. Infelizmente, verificaram-se fraudes nalgumas dessas firmas, com trabalhos mal elaborados, plagiados ou pagos mas não recebidos pelos clientes.

Conhecimento enciclopédico

Por outro lado, abundam no mercado as enciclopédias, constituindo as maiores referências The Book of Metal: The Most Comprehensive Encyclopedia of Metal Music Ever Created, Encyclopedia of Heavy Metal Music, The International Encyclopedia of Hard Rock & Heavy Metal, os cinco volumes da colecção Rock Detector (cada um incidindo num subgénero específico), The Virgin Encyclopedia of Heavy Rock, The International Encyclopedia of Hard Rock & Heavy Metal, The New Wave of British Heavy Metal Encyclopedia ou os dois volumes de Extreme Metal. Na Internet, as enciclopédias Metal Archives (www.metal-archives.com/), The BNR Metal Pages (www.bnrmetal.com/), GoC: Folk Metal Encyclopedia (www.truemetal.org/metalmagick/), Metallian (www.metallian.com/) ou o próprio Rock Detector (www.musicmight.com/) constituem referências obrigatórias.

Em Portugal, o que existe de mais semelhante a uma enciclopédia do género são as páginas publicadas na revista “Música & Som” entre 1983 e 1984 (com entradas sobre grupos internacionais de Hard Rock e Heavy Metal, excepcionalmente pesquisadas e redigidas pelo mítico jornalista Pedro Cardoso), a secção “Portugal de Metal”, publicada na “Loud!” durante mais de um ano e o blogue “A a Z do Metal Português” (http://enciclopediadometalportugues.blogspot.com, que brevemente voltará a ser actualizado). De resto, alguns sites e blogues publicam textos biográficos de bandas nacionais, na maioria das vezes pessimamente redigidos ou, o que é mais grave, plagiados, não merecendo portanto menção neste artigo.

Finalmente, nada mais existe além de obras generalistas sobre música onde se encontram biografias de algumas bandas portuguesas de Hard Rock / Metal. Por exemplo, a Enciclopédia de Música em Portugal no Séc. XX, lançada pelo Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa e com entradas da autoria do supra citado Miguel Almeida; Rock em Portugal, de Aristides Duarte; e o site “Música Portuguesa – Anos 80” (http://anos80.no.sapo.pt/). Muito há ainda a fazer nesta área, portanto.

E se ainda alguém julga que a investigação científica e a produção cultural tendo o Som Eterno por objecto é uma paranóia elitista (“lá vem este com as suas manias intelectualóides”, afirmarão alguns), basta recordar a importância de eventos como o congresso internacional “Sociologia da Música: Tendências, Interpelações, Perspectivas”, realizado entre os dias 23 e 25 de Julho na Culturgest, em Lisboa (www.culturgest.pt/actual/sociologia_musica.html). E o Metal não é menos do que os outros subgéneros musicais, pois não?

Dico

1 Embora também no México, por exemplo, já haja alguns trabalhos de investigação nesta área, como o disponível em www.geocities.com/rockymonster.geo/tesis.html#start

2 In A dimensão midiática da canção: a produção de sentido no heavy metal (http://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/comunicacaomidiaeconsumo/article/viewFile/5176/4810)

3 Que dirigiram o blockbuster Flight 666, dos Iron Maiden.

Junho 8, 2009

Metal – cultura para além da música

por Paulo Trindade

A ideia pobre e redutora de que os fãs de Metal se limitam a ouvir música e ver concertos diminui o género, projectando uma imagem boçal dos fãs, que não se traduz na realidade. Felizmente, o Som Eterno goza hoje de um melhor estatuto social, apesar de em terras lusas ainda não ser considerado parte da cultura popular.
 
Ao contrário do que há muito se faz (timidamente, mas faz-se) no Pop / Rock (com biografias publicadas dos Xutos & pontapés, GNR, Zé Pedro ou António Variações, bem como cronologias do género, livros de crónicas, etc.), em Portugal não há a mínima vontade de escrever, traduzir, publicar e divulgar livros sobre Metal*, não obstante a popularidade que o género vive hoje. Muito menos há quem se proponha realizar, traduzir ou difundir documentários sobre o género.
 
Pelo contrário, nos países anglo-saxónicos editam-se anualmente diversas obras versando o Metal. Uma breve visita ao site da Amazon permite-nos encontrar centenas de biografias, enciclopédias, estudos sociológicos / antropológicos / históricos, fotobiografias e outros livros sobre o estilo, desde o Hard Rock ao Grindcore. Abundam igualmente os documentários histórico-biográficos em DVD.
 
Nos países desenvolvidos existe a noção de que o Som Eterno é muito mais do que ouvir música e ver concertos – as editoras (livreiras, discográficas ou de media) vão ao encontro do público, numa era em que a informação fornecida pelos jornais, revistas e Internet já não satisfaz os fãs, cada vez mais exigentes e esclarecidos. A oferta adequa-se à procura.
 
Naturalmente, a imprensa especializada desses e de outros países vai muito para além da fórmula standard (leia-se “chapa quatro”), previsível e antiquada – entrevistas com bandas, críticas a álbuns / DVDs/ maquetas, notícias e reportagens de concertos ou de cenas locais. Ao contrário, esses media avaliam, promovem e divulgam livros, filmes e documentários (tão válidos como um CD ou DVD), não olvidando as entrevistas com os respectivos autores. Estes procedimentos, normais, diversificam os conteúdos e proporcionam aos fãs mais informação e conhecimento.
 
Infelizmente, para a única revista nacional do género é como se este enorme capital cultural não existisse (nas surpresas anunciadas a partir da centésima edição incluir-se-ão conteúdos do género?). Para sanar esta lacuna bastaria requisitar às editoras um exemplar da obra para efeitos de análise crítica e publicação (desta forma poderiam, inclusive, surgir propostas de tradução e edição nacionais). Se o fiz, com sucesso, enquanto editor de um mero blogue (no caso, o “Metal Incandescente”), mais facilmente o faria uma revista profissional.
 
Aliás, assim como as organizações de festivais estrangeiros compram páginas de publicidade na “Loud!” (certamente que o retorno desse investimento não representa muito mais do que uma centena de portugueses a viajar até aos eventos comunicados), também as editoras que lançam essas obras poderiam fazê-lo, gerando mais receitas publicitárias à revista.
 
Portanto, o facto de a quase totalidade destes livros e documentários não terem edição nacional traduzida para Português** não justifica a sua ausência nas páginas da “Loud!” (aliás, a própria revista “Blitz”, de muito maior expressão que a “Loud!”, sugere livros musicais). Mais: algumas dessas obras encontram-se disponíveis em lojas seleccionadas nas edições originais em número de exemplares reduzido. No caso da biografia de Slash, guitarrista dos Velvet Revolver (ex-Guns N’ Roses) é particularmente fácil encontrar a tradução portuguesa e mesmo a edição original. Nas restantes situações, os fãs colmatam a ausência deste género de obras das lojas nacionais encomendando-as via Internet.
 
Até hoje, só algumas publicações independentes nacionais divulgaram livros e documentários sobre Metal, assim como entrevistas aos respectivos autores, substituindo-se à “Loud!” neste desígnio – a revista “Underworld – Entulho Informativo” foi pioneira, sucedida pelo blogue “Metal Incandescente”, que antecedeu a rubrica “Sugestões de Peso” (do blogue do programa radiofónico “Música de Peso”) e o blogue “Musicalis“. Até quando serão os amadores a diversificar conteúdos, verdadeiramente representativos do que é hoje o imenso legado do Metal?

* A moribunda enciclopédia online A a Z do Metal Português  constitui a excepção, cuja tentativa de chegar a livro falhou.

** Flight 666, dos Iron Maiden, é a excepção.

Dico

Abril 13, 2009

Mortos-vivos em digressão

por Paulo Trindade

Embora já haja escrito sobre o tema, não resisto a abordá-lo novamente: a duradoura tendência do regresso ao activo (ainda que efémero) de grupos musicais finados atingiu o auge da ganância. Numa triste manifestação de puro mercantilismo, bandas, managers e promotores sugam avidamente o filão das tourneés (com especial enfoque nos apetecíveis festivais de Verão), tentando compensar os monumentais prejuízos acumulados pela quebra sistemática das vendas no mercado fonográfico gerada pela partilha ilegal de ficheiros musicais.

Às centenas de bandas que na última década regressaram aos palcos e / ou aos estúdios juntam-se agora os Gorguts, Limp Bizkit (outra vez não, por favor!), Ultravox, Faith No More, Blancmange, Mr. Big, No Doubt, Alice in Chains, Autopsy, Verve, Blink 182, Spandau Ballet, Guano Apes, The Specials, Skunk Anansie ou Blur, só para nomear alguns. Não há músico falido que descarte uma fatia do bolo enquanto o filão do revivalismo gerador de incontáveis reuniões não se esgotar.

O espectáculo / digressão Here and Now, cuja estreia decorreu em Novembro de 2001 no Reino Unido, e que chega a 29 de Maio ao Pavilhão Atlântico, em Lisboa, com o sub-título Lisboa 2009 – O melhor dos Anos Oitenta Ao Vivo, representa bem a tendência. Embrulhadas num pacote promocional do género “leve seis, pague quatro”, as glórias (?) pré-fabricadas da Pop dos anos 80 Rick Astley, Kim Wilde, Belinda Carlisle, ABC, Nik Kershaw e Curiosity Killed the Cat vêem assim garantida a sobrevivência por mais algum tempo, embora os cachets milionários de outrora não passem de mera recordação.

Os zombies mais desejados

Curiosamente, neste cenário de prostituição musical, os sempre humilhados Abba vêm mantendo a integridade, apesar das inúmeras propostas milionárias
recebidas desde que se separaram, em 1982, para actuações ao vivo. Resta saber até quando o vil metal falará mais baixo, já que, segundo os resultados de um inquérito divulgado em Janeiro pela empresa norte-americana de venda de ingressos viagogo, os reis da Pop sueca ocupam o topo das preferências no segmento das bandas extintas que os fãs mais gostariam de ver em palco este ano (o êxito fabuloso do musical “Mamma Mia!” e respectivo filme, do videojogo “SingStar Abba” e do best of “Abba Gold” – agora disponível em CD e DVD – não é alheio ao resultado obtido).

Os The Smiths, que recentemente declinaram uma reunião, chegaram ao segundo lugar das preferências, ocupando os Take That com Robbie Williams o terceiro posto (ambas as partes já mostraram interesse em trabalhar juntas novamente…). Nos resultados do inquérito, os The Stone Roses e os Guns N’ Roses com Slash ocupam a quarta e quinta posições, respectivamente.

A multiplicação da ganância

Mas o sôfrego aproveitamento do fabuloso potencial que o mercado ao vivo denota reflecte-se ainda mais num fenómeno que, remontando aos anos 50 (diferentes versões das mesmas bandas vocais de Rhythm & Blues como os The Platters, The Drifters ou The Coasters disputaram os palcos em simultâneo), é hoje bastante expressivo: duas ou mais versões concorrentes do mesmo grupo, simultaneamente em digressão. Os Beach Boys constituem um exemplo paradigmático, encontrando-se na estrada três encarnações do colectivo, uma liderada por Mike Love (voz), outra por Brian Wilson (baixo, voz) e outra por Al Jardine (guitarra, voz).

Os Creedence Clearwater Revival do vocalista e guitarrista John Fogerty ombreiam agora, ao vivo, com os Creedence Clearwater Revisited (onde figuram os restantes membros originais); os L.A.Guns do guitarrista e fundador Tracii Guns competiram directamente, em 2008, nas estradas norte-americanas, com os L.A. Guns do vocalista Phil Lewis e do baterista Steve Riley (ex-W.A.S.P.); os Styx do cantor Dennis DeYoung e a versão dos restantes músicos também actuaram em simultâneo, bem como diferentes encarnações dos Guess Who, War ou The Temptations 1 Particularmente civilizados foram os Asia que, tendo reunido a formação original em 2006, permitiram que o vocalista John Payne, frontman do grupo durante 15 anos, actuasse ao vivo sob a designação Asia Featuring John Payne.

Neste cenário o principal lesado é o fã, que paga para ver gato por lebre, com os músicos das formações originais dispersos por duas ou três bandas. E quem ganha? As diferentes versões dos grupos, que enchem as suas contas bancárias; e as promotoras que, dado o baixo valor de mercado dos artistas-clones, lhes pagam cachets mais reduzidos, gerando também pequenas fortunas na venda de ingressos. E o público, até quando irá compactuar no esquema?

1 Na música pesada as bandas-clone também não constitui novidade. Os The Company of Snakes, formados em 1998 pelos guitarristas Bernie Marsden e Micky Moody (ex-Whitesnake) fizeram digressões com o ex-colega Neil Murray (baixo), das quais resultou o duplo álbum ao vivo Here They Go Again, essencialmente constituído por temas dos Whitesnake. Burst the Bubble seria a única edição de originais.

Os Saxon ainda hoje vivem uma situação análoga. Em 1994 Graham Oliver (guitarra) e Steve Dawson (baixo) deixaram a banda para formar os Son of a Bitch, nome original da horda liderada pelo vocalista Biff Byford. Mas, em 2000, o guitarrista e o baixista assumem a designação Oliver/Dawson Saxon, motivando uma acção legal por Byford devido à utilização alegadamente abusiva do nome “Saxon”. O juiz discordou, viabilizando a designação do novo grupo, que tem no baterista de serviço o igualmente ex-Saxon Nigel Durham. Desde então, os

Oliver/Dawson Saxon lançaram álbuns de originais, embora os antigos clássicos do grupo-mãe tenham um papel destacado nos espectáculos ao vivo.

Dico

Janeiro 3, 2009

Levam-nos couro e cabelo

por Paulo Trindade

1 – Breves considerações acerca da economia musical contemporânea

O capitalismo selvagem instalado na indústria musical manifesta-se hoje como nunca no ultra-competitivo mercado dos espectáculos ao vivo. Durante a última década, a queda sistemática nas vendas de CD’s transformou as digressões no principal rendimento dos artistas e da indústria, gerando uma oferta de concertos inusitadamente elevada que permite aos fãs seleccionar os eventos a frequentar, numa tendência antiga nos países ricos e desenvolvidos, mas recente em Portugal. Com efeito, as bandas mais jovens – ou antigas mas de segunda / terceira linha – permanecem agora na estrada, em média, mais tempo do que há 10 anos. No entanto, mesmo para alguns gigantes, as digressões extensas e frequentes constituem, actualmente, um imperativo de carreira. Veja-se o exemplo dos Metallica ou dos The Rolling Stones.

Mas contrariando a lei económica da Oferta e da Procura – segundo a qual o preço dos serviços e produtos aumenta quando a quantidade disponível é inferior à procura e desce quando se verifica o inverso –, o impressionante número de artistas de primeira linha que hoje pisa solo nacional não reflecte um decréscimo no preço dos ingressos para os respectivos concertos. Pelo contrário. Tal deve-se, entre numerosos outros factores, como veremos adiante, ao estatuto e popularidade das vedetas – ou seja, à qualidade do “produto” -, decisivos no estabelecimento dos preços, não obstante a quantidade de oferta, pelo que, frequentemente, a subida dos preços acompanha o aumento da quantidade do produto / serviço disponível.

Portanto, a qualidade paga-se. E bem, como verificamos a nível global desde a segunda metade dos anos 90, quando o valor dos ingressos para espectáculos ao vivo iniciou uma curva ascendente contínua. Aliás, em Portugal vimos assistindo nos últimos 18 anos a um rol de megaespectáculos das maiores estrelas planetárias, inacessíveis a muitas bolsas.

E é precisamente no segmento dos grandes eventos que a estratégia comercial das promotoras melhor reflecte a Lei da Oferta e da Procura. Como? Limitando artificialmente a oferta ao vivo das megaestrelas para assim aumentar o preço dos ingressos. Ou seja, ao invés de um grupo actuar duas noites na mesma cidade ou país, uma única data permite à promotora pagar um só cachet à banda e aumentar desmesuradamente o valor dos ingressos – dado a procura superar a oferta – numa tendência puramente especulativa¹. Deste assunto falaremos mais em detalhe mais à frente.

Segmentação

Por norma, os preços dos ingressos para festivais são proporcionalmente mais acessíveis aos dos vulgares concertos (embora, ainda assim, exagerados para o consumidor médio), segundo o conceito de “pacote económico” – “pague 4, leve 6”, particularmente atractivo para os jovens, menos folgados monetariamente. Pagar €40 para ver seis bandas no Super Bock Super Rock em Lisboa ou desembolsar €35 para ver quatro no mesmo festival na invicta é, em proporção, mais económico do que investir €30 para ver uma só banda ou artista na Aula Magna (Queensryche e Steve Vai são exemplos flagrantes).

Contudo, em termos absolutos – e é isso que está em causa -, estes valores revelam-se absurdos (o que dizer também dos €53 para ver quatro grupos no Rock in Rio Lisboa?) num contexto de crise económica há uma década vigente em Portugal. O estatuto de alguns artistas justificá-lo-á, mas ainda assim trata-se de um ignóbil ataque ao bolso do consumidor, especialmente numa época delicadíssima em termos financeiros.

Se a isto acrescermos os ultrajantes preços dos “comes e bebes” nas salas de espectáculos, que vedam aos fãs a possibilidade de levar alimentos de casa para os obrigar a desembolsar pequenas fortunas, como explicar, então, as lotações esgotadas, ano após ano, nos principais megaeventos?

2 – Conhecer o mercado para o dominar

Há explicações socioculturais, económicas, psicológicas, demográficas e – quem diria – lógicas para este fenómeno global.

A) Segundo o livro A Note on Restaurant Pricing and Other Examples of Social Influences on Price, do economista norte-americano Gary Becker, vencedor em 1992 do Bank of Sweden Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel, a procura dos serviços e produtos a que está associada uma forte componente social aumenta com a demanda agregada desses bens. Ou seja, os indivíduos dispõem-se a pagar mais por determinados produtos e serviços se deles usufruírem socialmente, gastando menos quando se divertem sozinhos.

Esta disposição para investir mais em bens consumidos entre familiares, amigos ou colegas resulta do gosto inato do Homem pela discussão de experiências análogas com terceiros. Ora, um espectáculo encerra uma fortíssima componente social, facilitando a integração dos indivíduos nos respectivos grupos socioculturais, bem como a afirmação da sua identidade.

B) Por outro lado, a vivência de experiências únicas, ou raras, a que se atribui um forte valor sentimental, é determinante na subvalorização dos respectivos preços aos olhos do consumidor. O facto de uma dada experiência estar acessível a um número mais ou menos restrito de indivíduos, em detrimento da maioria, que inveja a sua sorte, constitui um factor decisivo na aquisição de um produto ou serviço. É o que os sociólogos norte-americanos Paul B. Horton e Chester L. Hunt chamam de “competição”, ou seja “a luta pela posse de recompensas cuja oferta é limitada – dinheiro, bens status, poder, amor – qualquer coisa”. Exemplos? As corridas aos ingressos para espectáculos de artistas em fim de carreira (cujos fãs temem não voltar a ter oportunidade de ver); ou que anunciam, digressão após digressão, que a próxima será mesmo a derradeira (numa suja estratégia de marketing para vender bilhetes); ou que, anos após encerrarem funções, regressam, embora fugazmente, às tournées ou concertos isolados para aumentar rendimentos, pagar dívidas ou alimentar vícios.

Nesta linha de raciocínio, o património que fica para a posteridade vale, muitas vezes per se, o dinheiro investido num ingresso. Quem não gosta de rever as fotos tiradas num espectáculo, ouvir o registo áudio ou ver a captação vídeo, partilhando essas memórias com terceiros? E alguém resistirá a plastificar o bilhete para juntar à vasta colecção?

C) Outro aspecto decisivo no aumento do preço dos ingressos é, segundo o economista norte-americano Tony Vallencourt, a importante mudança na distribuição etária do segmento-alvo dos eventos musicais – há muito que os jovens não são o público exclusivo, ou principal, dos concertos. O facto de a rentabilíssima indústria da música ao vivo ser hoje dominada por megaestrelas com longas carreiras (Metallica, U2, Sting, The Rolling Stones, Bon Jovi, Bruce Springsteen, Iron Maiden, Madonna, AC/DC, Roger Waters, Van Halen, Paul MCcArtney, etc.) explica a apetência dos fãs seniores pelos concertos.²

Sem surpresa, os artistas com longas carreiras seduzem os fãs mais velhos, de longa data, tendencialmente usufrutuários de alguma estabilidade profissional que, em teoria, lhes confere maior poder económico, parcialmente investido em bens e serviços culturais (com efeito, nalguns casos, a percentagem de ingressos para eventos de artistas com várias décadas de carreira adquiridos pelos fãs situados na faixa etária entre os 35 e os 55 anos iguala ou supera a dos mais jovens).

Embora lógica, esta tese de Vallencourt denota uma irresponsabilidade simplista. Em primeiro lugar, subestima a fragilidade económica mundial (apesar de redigido em 2005, antes da actual crise financeira, o texto não vislumbra cenários como este), assim como o aumento do subemprego (com toda a precaridade associada) e do desemprego, não obstante a faixa etária dos trabalhadores, que vêem o seu poder de compra reduzido.

Ou seja, há muito que as pessoas não gozam necessariamente de uma situação económico-laboral estável (à semelhança dos nossos pais e avós há décadas). Os empregos vitalícios e salários justos são hoje uma utopia. Por outro lado, a capacidade financeira de inúmeras famílias da classe média, nomeadamente europeias e norte-americanas, é meramente ilusório, resultando da contracção de sucessivos créditos bancários, não raras vezes para satisfazer as suas necessidades lúdicas.

3 – Clear Channel – um estudo de caso

Na última década, a cartelização e a especulação irresponsável estiveram, em grande medida, na base dos preços injuriosos que os ingressos para concertos atingiram. A norte-americana Clear Channel é um exemplo paradigmático de cartelização na indústria musical. Em Outubro do ano passado, um juiz obrigou a gigantesca empresa a “sujeitar-se a um processo desencadeado por uma acção legal em nome colectivo” que a acusou de “abuso de posição dominante para inflacionar os preços dos bilhetes e impedir a concorrência”, noticiava Miguel Caetano a 25 desse mês no blogue Remixtures (http://remixtures.com).
Mas o texto continuava: “(…) a Live Nation, promotora de espectáculos que assinou o famoso contrato de 120 milhões de dólares com Madonna, foi criada em 2005 a partir de um spin-off de uma divisão da Clear Channel. Tendo em conta que este conglomerado multimédia possui 1200 estações de rádio nos EUA (…), os queixosos dizem que a Clear Channel obrigou os artistas a recorrer aos seus serviços de promoção e organização de digressões sob pena das suas músicas não passarem em nenhuma rádio”.
O texto explicava em detalhe o ultrajante processo. “Uma vez que a rádio continua a ser o meio mais eficaz de marketing para os artistas promoverem os seus concertos e que a Clear Channel beneficia de uma posição quase monopolista, esta empresa pode impedir que as músicas dos artistas que recorram a outras promotoras passem na rádio. Graças a este controlo, ela aproveita também para aumentar o preço dos seus serviços e das entradas para os concertos”. Há estratégia mais suja?
Previsivelmente, o saldo numérico desta operação foi elevadíssimo. “As queixas apresentam ainda dados comparativos que indicam que desde 1998 até hoje [NR.: Outubro de 2007] o preço médio dos bilhetes aumentou 61 por cento ao passo que o índice médio de preços no consumidor subiu 13 por cento nos EUA. As acções legais foram instauradas por consumidores residentes em 23 regiões diferentes dos EUA que compraram bilhetes para concertos rock da Clear Channel ou das suas subsidiária relativos a artistas como Madonna, Bruce Springsteen, Eric Clapton, Billy Joel, Elvis Costello e The Who”.
As consequências não se fizeram esperar, tendo o juiz certificado “cinco regiões – Chicago, Denver, Nova Inglaterra, Nova Iorque/Nova Jersey, Colorado e Sul da Califórnia – pelo que todos os consumidores que compraram entradas para concertos nestas regiões depois de 19 de Junho de 1998 poderão exigir indemnizações”. E muitos fizeram-no, concretizando o direito que lhes assistia.

4 – Desembolsar pequenas fortunas por um espectáculo

Em Portugal ficam na memória os elevadíssimos preços dos ingressos colocados à venda pelas maiores promotoras para os concertos das grandes estrelas. Por exemplo, os fãs que assistiram aos últimos espectáculos nacionais dos The Rolling Stones, U2 ou The Police pagaram, no mínimo, €69, €54 e €55, respectivamente (no caso dos Stones, os ingressos chegaram aos €142), sem esquecer os €60 pagos pelos fãs de Madonna que viram a cantora em Setembro no Parque da Bela Vista.

Mas será que os acessíveis valores dos bilhetes para os concertos dos Soulfly ou dos Judas Priest com os Megadeth e Testament em Lisboa no primeiro trimestre de 2009 indiciam alguma tendência para a redução dos preços? E, nesse caso, será para continuar? Ou estaremos meramente perante um fenómeno de desinflação? Só nos próximos meses saberemos.

5 – A equação básica

Contudo, os aspectos base no estabelecimento dos preços dos ingressos são também, naturalmente, económicos, contratuais, técnicos e logísticos. A equação abrange, por isso, numerosas variáveis, além das que vimos anteriormente.

D) O cachet dos artistas. Os músicos de primeira linha cobram cachets milionários, sobre-inflacionando os preços dos bilhetes. Além disso, não é raro serem os próprios artistas e / ou os respectivos managements a estipular o valor das entradas. Por exemplo, Barbara Streisand não actua por menos de 300 euros/bilhete. No extremo oposto situam-se os Pearl Jam, a face mais visível da luta pelo re-estabelecimento da justiça na política de preços das entradas para os concertos.

E) Os elevados custos do aluguer do espaço;

F) A produção do evento: logística (deslocação do staff e do material), potência sonora, luminotécnica e pirotécnica; estrutura do palco; eventual contratação de roadies locais e aluguer de equipamento extra, etc.;

G) A variação de preço consoante o lugar ocupado na sala, o que não se verificava até meados dos anos 90³;
 
H) Potenciais excentricidades das bandas;

I) A percentagem de lucro estimada pelos promotores;

J) O pagamento às agências de ingressos.

Ora, sabendo que uma vasta fatia do público se dispõe a desembolsar o que for necessário para ver em palco os seus ídolos (mesmo que duas ou três vezes num curto espaço de tempo, oferecendo aos fãs mais do mesmo sempre com êxito garantido), as promotoras arriscam inflacionar descaradamente o preço dos ingressos. E quase sempre esta é uma aposta ganha, como já vimos. Mas, se não for, as promotoras não têm pejo em baixar drasticamente os preços dos ingressos no dia ou vésperas do espectáculo, numa tentativa de aumentar e taxa de ocupação do espaço e evitar o flop comercial. Prejudicados ficam os fãs que adquiriram o bilhete – muito mais caro – atempadamente.

De qualquer forma, não resisto a terminar citando Gimba num artigo publicado em Outubro na “Blitz”: “E a verdade é que, no meio da nossa eterna e já nauseabunda «crise», há sempre uma certa burguesia com poder-de-compra e situação económica mias que confortável, que – bem vistas as coisas – merece e deve ser depenada no seu orçamente mensal”. Sem dúvida que merece. O problema é que esses burgueses são uma imensa minoria – e cada vez menor, se me permitem a redundância -, já que aumenta vertiginosamente o número de portugueses sem dinheiro para ter uma vida digna, quanto mais para frequentar espectáculos… Continuaremos pois, em 2009, a testemunhar as habituais  enchentes dos festivais e eventos de semelhante magnitude? Será muito curioso fazer essa análise. Estejam atentos.

Um excelente 2009 para todos.

¹ E ainda há quem vitimize as promotoras, afirmando que estas recebem, na melhor das hipóteses, 10% dos valores envolvidos, açambarcando as bandas o restante.

² O fenómeno resulta da não menos rentável febre revivalista gerada há uma década pela indústria musical, fazendo regressar ao activo inúmeras lendas em formato zombie (Sex Pistols, The Police, Queen, The Doors, etc. Com efeito, o (re)lançamento de compilações, álbuns ao vivo ou mesmo de fundos de catálogo inteiros, agraciados com extras, seduzem especialmente os fãs seniores, com pelo menos 35 anos, que privilegiam o disco enquanto objecto físico, rejeitando o download ilegal. Sabendo que nesta faixa etária o consumo de música ao vivo tem aumentado, podemos concluir que as reedições e as tournées de nostalgia (assim designadas por recuperarem a memória de outras épocas) se complementam, assegurando a manutenção da indústria.

³ Uma tendência crescente iniciada pela Ticketmaster são os leilões online de bilhetes correspondentes aos melhores lugares dos espaços onde irão ocorrer espectáculos seleccionados. Os lucros são repartidos pelos artistas, promotores e Ticketmaster. Desta forma, além de aumentar as receitas, a empresa combate os leilões (ou outro género de venda online) levados a cabo por outros especuladores, que vendem os bilhetes a preços várias vezes mais caros.

Dico 

Novembro 16, 2008

Jogar pelo seguro

por Paulo Trindade

Irritam-me as bandas que, havendo mudado radicalmente a abordagem musical, negam assumir outra designação, melhor representativa da sua nova identidade. Obviamente que a evolução musical é incontornável – para um músico, não existe nada mais limitativo do que permanecer toda uma carreira preso à mesma fórmula. Mas, na grande parte das vezes, são as perigosas mas tentadoras concessões ao mainstream que sustentam o fenómeno, aliciando inúmeras bandas.

Repudia-me a ausência de honestidade manifestada pelos grupos que teimam em manter o nome original (por vezes devido a obrigações contratuais, é certo), mesmo quando cedem ao comercialismo ou chegam à fase da carreira em que a abordagem musical, lírica e estética de outrora se encontra totalmente descaracterizada. Paradise Lost (na fase Host, por exemplo), Avantasia (o Stoner Rock do último álbum, The Scarecrow, é chocante) ou U2 (desde Pop, em vários registos) são meros exemplos.

Bandas como estas vivem prisioneiras das glórias passadas, do legado intemporal que mancham dia após dia ao manterem uma designação na qual já não se revêem. Desta forma conquistam, seguramente, novos fãs, mas alienam muitos mais – os de longa data, a quem devem a fama. No entanto, é ainda mais dramático e penoso assistir ao esforço infrutífero de bandas míticas na recuperação do estilo, alma e atitude que lhes garantiu a imortalidade (veja-se o exemplo dos Metallica), num reconhecimento tácito dos erros decorrentes das concessões ao mainstream.

A insistência em preservar o nome original torna-se ainda mais bizarra quando a mudança no conceito global resulta da ausência de um elemento insubstituível, como Teresa Salgueiro nos Madredeus. Não seria, no caso, mais adequado rebaptizar o agora irreconhecível agrupamento?

Não tenho dúvidas que um músico deve experimentar, sem limites, novas sonoridades, géneros e instrumentos musicais; diferentes abordagens líricas, ambientais e visuais; distintas formas de compor, produzir e misturar.

Mas essa liberdade criativa não deve sacrificar a identidade, conceito, integridade e estilo de um músico ou grupo. Não é fácil enterrar uma carreira e recomeçar sob outra designação. É necessário coragem, firmeza e honestidade. Mas, acima de tudo, é essencial uma ruptura efectiva com o passado, uma abertura a novas perspectivas. A maioria receia fazê-lo. Jogar pelo seguro é menos arriscado e potencialmente rentável – poderia enunciar aqui várias outras figuras que facturam à custa do seu próprio nome. Mas há quem não receie uma nova encarnação – os nacionais Neonírico e os britânicos The Rotted, antes conhecidos por The Symphonyx e Gorerotted, respectivamente, são exemplos recentes de coragem e honestidade.

Contudo, nem sempre é necessário começar de novo, bastando aos músicos encetar projectos paralelos em que possam explorar livremente as ideias não aproveitáveis nas suas bandas principais. Incontáveis artistas fazem-no, manifestando uma invejável honestidade. Infelizmente muitos pensam de outra forma, cegos pelo dinheiro fácil.

Dico

Junho 23, 2008

“Barões”, caciques e pobres de espírito

por Antonio Lopes

Nos últimos 20 anos, a semelhança da indústria musical portuguesa com a política chegou aos limites do absurdo. Eu explico: nos partidos existem os “barões”, os “notáveis”, cujo trajecto político se dilui na história do partido. Essas figuras gozam do apoio de caciques fiéis e poderosos que, na “máquina” partidária, lideram prestigiadas correntes de opinião e influência visando a manutenção do poder ou a conquista do mesmo por via de hábeis manobras de bastidores.

Embora sem esta dimensão conspirativa (valha-nos isso), à Música Portuguesa também não faltam “barões” – nas bandas, no jornalismo/crítica, na rádio, na TV, na edição, na fotografia -, a quem os caciques e os pobres de espírito (normalmente fãs acríticos e figuras interesseiras que pretendem obter benefícios) prestam incondicional vassalagem.

São sempre os mesmos a aparecer e a usufruir das melhores oportunidades, frequentemente monopolizando áreas diversas por via da acumulação de funções. São eles os “dinossauros intocáveis”, protegidos pelo establishment, com o qual se confundem. Não é necessariamente o seu mérito que está em causa, mas a sua eternização em posições de vulto, sem que haja interesse em encontrar sangue novo.

Ao verem ameaçada por novos valores a tribuna a que julgam ter direito ad aeternum pela “obra realizada” (merecerão uma medalha por isso, já que auferem salários para tal?), os “barões” assumem frequentemente comportamentos indignos. A eles e aos caciques assusta a emergência de novos talentos. Receiam perder protagonismo, influência e sustento, aterroriza-os a perspectiva de ceder o palco a outrem.

É altura, pois, de o mercado se abrir às novas gerações. Há muito sangue novo habilitado, com provas dadas, mas a quem o establishment afasta à partida, já que só a alguns iluminados é permitido o ingresso neste sistema restrito e fechado. Por exemplo, no que se refere ao jornalismo, a revista “CheckSound”, lançada recentemente, constitui um exemplo de originalidade (unicamente disponível em formato PDF para download gratuito, o seu enfoque é a fotoreportagem) e profissionalismo. Contudo, a escassez de apoios inviabiliza voos mais arrojados.

Sem perspectivas ou reais oportunidades, as novas promessas encontram-se impossibilitadas de mostrar o seu real valor, confinando-se à produção vitalícia de obras meritórias no obscurantismo underground. Não constituirá isto um imenso desperdício de talento?
Dico

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Abril 17, 2008

Eurovisão: Metal finlandês novamente ao ataque

por Paulo Trindade

Os finlandeses Teräsbetoni venceram a 1 de Março o Festival da Canção local com o tema «Missä Miehet Ratsastaa» (em inglês algo como «Where Men Ride»), composto pelo vocalista/baixista Jarkko Ahola (a actuação encontra-se disponível em http://youtube.com/watch?v=jpMzLJ5Ws6g). Os 38,9% de votos do público garantiram ao quarteto a representação do seu país no 53º Festival Eurovisão da Canção, que se realiza a 20 de Maio em Belgrado, na Sérvia.

Uma vez mais o público e as bandas finlandesas provam estar na vanguarda da música europeia, rejeitando liminarmente o facilitismo da Música Ligeira e da Pop baladesca que sempre dominaram o certame europeu, para gáudio, respectivamente, de velhos retrógrados e nostálgicos e de teenagers acríticos e histéricos, obcecados por música de consumo rápido.

O terreno desbravado pelos Lordi – cuja vitória no Festival, em 2006, com o tema «Hard Rock Hallelujah», tanta gente repugnou, incluindo personalidades nacionais e estrangeiras ligadas ao Metal – revela ser fértil e é pena que grupos de outros países do Velho Continente com tradição na música pesada, como a Alemanha e a Inglaterra, não sigam o exemplo dos seus congéneres finlandeses.

Obviamente que o lançamento de «Missä Miehet Ratsastaa» em formato single a 27 de Fevereiro constituiu uma genial manobra de marketing que terá influenciado decisivamente a votação do público. Não sendo fantástica, «Missä Miehet Ratsastaa» reúne os ingredientes necessários a uma boa canção de Metal – peso, melodia, proficiência técnica, coros certeiros -, apresentando um refrão simples, apelativo, e uma cadência irresistível. Além disso, o tema figura no alinhamento do terceiro álbum do grupo, Myrskyntuoja, que chegou às lojas a 18 do mês passado com selo da Warner Music Finland.

Por outro lado, Myrskyntuoja transporta consigo a expectativa de, no mínimo, igualar o galardão de ouro alcançado na Finlândia com o anterior Vaadimme Metallia (lançado em 2006), garantindo simultaneamente a internacionalização do grupo (ainda na sua génese), independentemente das letras em finlandês e do vencedor escolhido no Festival Eurovisão da Canção. A produção assinada pelo guru Hiili Hiilesmaa e a estratégia do gigante discográfico por trás do grupo face à participação do mesmo no evento aumentam ainda mais a expectativa.

Não obstante as opiniões dos detractores, nem os Teräsbetoni nem os Lordi são produtos gerados pela indústria. É certo que os primeiros se encontram desde sempre na Warner Music e os segundos estão agora na Sony BMG, mas ambos vieram do underground, remontando a sua história a alguns anos antes das respectivas participações no Festival Eurovisão da Canção e dos contratos com estas multinacionais.

No entanto, ambos os grupos conquistaram o respeito dos fãs sem que hajam comprometido a sua integridade artística (ou do Metal enquanto género musical) em maior grau do que fenómenos como os Metallica, Korn ou Queensrÿche fizeram. Aliás, nem os Teräsbetoni nem os Lordi fazem nada que inúmeros grupos não fizessem já nos anos 80, tanto a nível musical como estético. A diferença é que, por via dos Teräsbetoni, a música pesada vai, de novo, chegar a um público mais vasto, mas não irá tornar-se necessariamente mais mainstream do que já é mesmo sem a realização eventos do género.

Desejo que os Teräsbetoni vençam o certame, mas não estou certo que tal aconteça. O efeito surpresa gerado pelos Lordi há dois anos (quer pelo género musical praticado quer, essencialmente, pela estética explorada) ter-se-á dissipado, pelo que o grupo de Jarkko Ahola terá dificuldade em capitalizá-lo. Mas, não obstante o lugar que os Teräsbetoni conquistem, a sua participação constitui, por si só, mais uma vitória para o Metal. Quer alguns queiram quer não.

Fevereiro 11, 2008

O negócio multimilionário das reuniões de bandas

por Paulo Trindade

Estarei a proferir uma blasfémia aos olhos de muitos se afirmar que me merecem desconfiança as reuniões dos line-ups clássicos de bandas profissionais (ou semi-profissionais) cujos elementos-chave há muito cederam lugar a outros músicos, incumbidos da ingrata tarefa de prosseguir o trabalho dos carismáticos antecessores, simultaneamente demarcando-se do mesmo. No entanto, suspeito ainda mais do regresso ao activo de bandas extintas, que afirmam desbocadamente ser a música per se que as impele a regressar às lides, mesmo que por uma noite só.

Em ambos os casos, esta moda que há anos assola o universo da música sem apresentar sinais de abrandamento resume-se a mero oportunismo mercantilista:

– das editoras e retalhistas, reais e virtuais, cujo volume de negócios aumenta à custa de gravações antigas (maioritariamente sob a forma de best off’s, álbuns ao vivo e outras compilações duvidosas cujo único motivo de interesse reside nos extras, inéditos ou raridades habitualmente incluídos) ou novas, bastas vezes de inferior qualidade;

– das empresas de management / booking e merchandise, que exploram sofregamente o filão das tournées e eventos associados – workshops, sessões de autógrafos, etc.;

– dos promotores, nomeadamente de festivais, que ano após ano materializam reuniões de grupos clássicos (o Wacken Open Air constitui, no Metal, a face mais visível desta rentável moda, tendo a organização do festival já confirmado para 2008 actuações dos regressados Carcass e At the Gates);

– dos intérpretes, que relançam carreiras estagnadas ou inexistentes, após desaires musicais noutros projectos ou incursões em diferentes áreas profissionais (casos, por exemplo, de Donald e John Tardy, dos Obituary)

– da comunicação social, que se alimenta do alarido associado a estas reuniões e das controvérsias inerentes à atribulada existência de muitas bandas que, não obstante, cedem ao apelo do vil metal, recuperando as suas formações clássicas (os Police são um dos mais clamorosos exemplos).

Muitos destes agentes limitam-se a tentar sobreviver numa era em que as acentuadas quebras nas vendas discográficas obrigam à descoberta urgente de novos modelos de negócio e à exploração máxima daqueles já existentes. No entanto, há muito que a tendência se tornou uma moda geradora de milhões e sem fim à vista, expondo sistematicamente os fãs aos mesmos produtos, agora sobre-inflacionados.

Congratulei-me, obviamente, por, quase na viragem do século, Bruce Dickinson e Adrian Smith terem reocupado os seus lugares nos Iron Maiden (porém, não entendo o que ainda faz Janick Jers no grupo, além de mandar a guitarra ao ar nos espectáculos) e, mais tarde, Rob Alford ter-lhes seguido o exemplo nos Judas Priest. O momento da confirmação do regresso de Dave Lombardo aos Slayer foi mágico e a notícia de Matt Barlow ocupar novamente os comandos dos Iced Earth deixou-me radiante.

No entanto, dispensava a sucessão de acusações mútuas no âmbito do efémero regresso de Messiah Marcolin aos Candlemass, a controvérsia do entra-e-sai de vocalistas nos Anthrax (com John Bush e Joey Belladona a substituírem-se mutuamente e, por fim, a verem-se preteridos a favor do novíssimo frontman, o desconhecido Dan Nelson) ou da infeliz conduta dos irmãos Eddie e Alex Van Halen (coadjuvados pelo regressado David Lee Roth) para com o baixista de sempre, Michael Anthony (substituído na tournée de reunião dos Van Halen por Wolfgang, o filho adolescente de Eddie).

O facto de um (bom) músico ser preterido a favor do seu antecessor constitui um abalo não negligenciável na sua carreira. Imagino o que sentiu Tim “Ripper” Owens pela “dispensa” de que foi alvo nos Judas Priest e, depois, nos Iced Earth, para que Rob Halford e Matt Barlow pudessem reocupar as suas posições. Ou John Bush quando se viu obrigado a ceder o posto de frontman a Joey Belladona. *

Por outro lado, o regresso dos Terrorizer (efémero devido à morte prematura de Jesse Pintado), Destruction (com Schimmer de volta mas sem o baterista Olly), Celtic Frost, Obituary, Europe, Gorefest ou Atheist foram bem sucedidos (embora, no caso destes últimos, não haja servido para mais do que vender umas cópias dos álbuns re-editados, dar alguns expectáculos e gravar um DVD).

Essas bandas provaram a sua relevância e qualidade musical hoje – numa época marcada pelo excesso de grupos, na sua maioria clones dos originais – como há 20 anos. São génios que souberam recuperar o estatuto outrora desperdiçado. Infelizmente, o mesmo não se aplica aos Death Angel, Nuclear Assault, Onslaught, Sabbat ou Brutal Truth, cujos regressos se mostraram irrelevantes para o Metal. Hoje, essas bandas nada acrescentam ao género, vivendo uma existência banal e, nalguns casos, manchando a sua história. Para quê, então, retomar capítulos encerrados? Porque não dignificar esses legados musicais, abrindo-lhes as portas da eternidade como são conhecidos? **

No entanto, o oportunismo revela a sua expressão máxima no imoral regresso, ainda que para concertos ou digressões pontuais, de grupos míticos, finados há décadas e órfãos das suas figuras de proa, agora nas mãos do Criador. Foi chocante ver os Queen sem Freddie Mercury, os The Doors (perdão, The Doors of the XXI Century) sem Jim Morrison (mas com um ridículo Ian Astbury tentando imitar o lendário cantor ao mais ínfimo pormenor), os Sex Pistols (que actuam a 31 de Julho no Festival de Paredes de Coura)sem Sid Vicious ou os Led Zeppelin sem John Bonham (Jason, o filho, constituiu um mero prémio de consolação. Resta saber até quando a banda resistirá ao apelo monetário que uma digressão mundial constitui).

Mais do que anti-natura, estas reuniões desrespeitam grosseiramente a memória desses músicos e os sentimentos das suas famílias, amigos e fãs genuínos, que não alinham na farsa milionária. Os regressos constituem, aliás, uma violação abjecta do legado que as respectivas bandas ergueram. Vemos assim ícones da música reduzidos a (más) bandas de covers de si próprios, manchando irreversivelmente passados gloriosos que deveriam manter-se intocados. Inestimáveis contributos para a música são arrastados pela lama. O erro histórico que constituem estas reuniões não vale o dinheiro que geram. Agora, os fãs não terão discernimento para o reconhecer, mas o tempo encarregar-se-á de o demonstrar.

* Blaze Bailey constituiu uma excepção à regra, tendo-se desde logo revelado incapaz de honrar o brilhante legado que herdara de Bruce Dickinson.

** É certo que também no Underground se verificam regressos injustificados, mas apenas as bandas sem ambições de profissionalização voltam ao activo por genuíno amor à música. Na cena metálica nacional a moda das reuniões também já pegou mas, até agora, quase sempre de forma digna, com os Paranormal Waltz, Brutal Orgasmo ou Filli Nigrantium Infernalium a dignificarem a cena, o que não podemos dizer da novela em que se tornou a existência dos Alkateya, dando origem aos Gárgula.

Texto escrito por Dico